domingo, 27 de janeiro de 2013


«Há sujeições que posso tornar públicas e essas são os gatos e a escrita. Devo dizer que reconheço nas duas entidades semelhanças. Talvez os gatos e a escrita tenham vindo do mesmo ovo que um deus fertilizou. Instalaram um trono vitalício dentro da minha vida desde cedo. Incorporei-os tão intensamente que nem sei onde acabo e eles começam. Há uma simbiose que pertence à mais baixa biologia. Mas a palavra simbiose é mal escolhida. Eles viveriam muito bem sem mim. Eu, sem eles, é que não. E sabem isso. Sabem perfeitamente que dominam.
Comportam-se ambos com igual sobranceria. Vêm se querem, quando querem, para que os sirva, mas se sou eu a convocá-los, não me ligam. Se entendem que lhes devo abrir a porta, chamam às horas mais desconfortáveis. Lá me levanto, às quatro da manhã, ou para escrever ou para deitar whiskas no prato. A retribuição é coisa pouca: um roçar pelas pernas, uma frase. E eu, ciente da minha condição, renunciando à dignidade humana, agradeço a bondade do incómodo.»

Hélia Correia



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