domingo, 27 de janeiro de 2013


«Há sujeições que posso tornar públicas e essas são os gatos e a escrita. Devo dizer que reconheço nas duas entidades semelhanças. Talvez os gatos e a escrita tenham vindo do mesmo ovo que um deus fertilizou. Instalaram um trono vitalício dentro da minha vida desde cedo. Incorporei-os tão intensamente que nem sei onde acabo e eles começam. Há uma simbiose que pertence à mais baixa biologia. Mas a palavra simbiose é mal escolhida. Eles viveriam muito bem sem mim. Eu, sem eles, é que não. E sabem isso. Sabem perfeitamente que dominam.
Comportam-se ambos com igual sobranceria. Vêm se querem, quando querem, para que os sirva, mas se sou eu a convocá-los, não me ligam. Se entendem que lhes devo abrir a porta, chamam às horas mais desconfortáveis. Lá me levanto, às quatro da manhã, ou para escrever ou para deitar whiskas no prato. A retribuição é coisa pouca: um roçar pelas pernas, uma frase. E eu, ciente da minha condição, renunciando à dignidade humana, agradeço a bondade do incómodo.»

Hélia Correia



sábado, 19 de janeiro de 2013

sábado, 12 de janeiro de 2013

terça-feira, 8 de janeiro de 2013


Mrs. Lowndes-Stone - Bagagens? Vais tu para onde desta vez, Agnes? 
Eu - Para a capital.
Lady Elizabeth Conyngham - Mas tu odeias essa terra!
Eu - Tem de ser. O mundo assim me exige.
Lady Elizabeth Conyngham - Ai! Renderes-te assim ao que o mundo quer de ti é renegar o TEU próprio mundo.
Eu - Não estou rendida e muito menos me renego!  E o meu mundo não é físico e posso leva-lo para onde bem me aprouver. É verdade, Lisboa é sem dúvida uma terrível cidade para se viver, mas vou de passagem, uma data de dias para casa de meu irmão. Vou apenas por razões profissionais... 
Mrs. Lowndes-Stone - Razões profissionais para mulheres! Que graça esse vosso tempo!
Lady Elizabeth Conyngham - Até à vista minha querida! 

Companheiras de quarto têm sempre algo a dizer...




          Retrato de Mrs. Lowndes-Stone (1775) Thomas Gainsborough 



Lady Elizabeth Conyngham (1821-1824) - Thomas Lawrence