terça-feira, 13 de novembro de 2012


Para uma mulher cortar o cabelo é preciso um desejo de mudança.
O cabelo para a mulher é um ser, um fragmento vivo, como uma aura palpável, um espírito de encanto, interdependente do corpo humano. Alimenta-se das histórias de amor, dos sentimentos de paixão, da comoção que advém da contemplação. E nunca para de receber, sem filtro nem freio até experimentar a amargura de um descontentamento, de ansiedades, de invejas e ódios. Absorve tudo, intoxica-se, corrói-se, fragiliza-se e despega-se da cabeça, cai morto. O comprimento dos fios contam anos de história, anos que entre o bem e o mal elevaram o rosto da mulher a determinadas posições cénicas até estagnar sem mais nada para dizer, passivo; a partir da linha do peito o comprimento do cabelo já não altera a figura dela, já não contribui para o encantamento do rosto. Muitas vezes, a necessidade de cortar o cabelo está relacionada com um desejo de renascimento, com uma quebra de cena. Para a mulher, a violência da passagem dói, o apego à materialização das suas histórias reverbera no som de cada lance de tesoura.
Mais curto e ultrapassada a dor, ela passa para um registo mais masculino, pontiagudo e destemido e até um pouco vingativo. Vai contra tudo e todos inflamada e irascível como um centauro. Incendeia, vira tudo ao contrário até chegar ao estado caótico. E é então que pára e fica só, cansada. Tudo em cinzas, silencioso... Aí volta o amor incondicional, a ternura majestosa e o equilíbrio tão efémero e arrebatador do cabelo pelos ombros.

Agnes

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