quinta-feira, 28 de novembro de 2013

CANÇÃO PARA AS MINHAS FILHAS


Como sereis minhas filhas 
quando o meu poema terminar?

Como sereis
agora mesmo
daqui a 5 minutos
5 anos
uma medida qualquer 
impalpável
dessas que vestem o tempo
como se o tempo pudesse ser vestido?

Como sereis então
nesse tempo que eu não sei dizer?
Mais claras? Mais azuis? Mais aves? 
Tereis já uma ruga pousada junto à boca
e o cântaro da água entornado no olhar?

Que sol trará a luz às vossas mãos?
Que sal tomará conta da música do corpo?
Quem vos cantará 
quando eu fechar a casa dos meus versos?

Viverá nos vossos dedos o estilete
o aparo 
o bico de carvão 
com que sobre o mar se escreve
o desejo de ser livre?

Haverá uma canção que venha em vós 
romper a noite 
e instaurar a transparência do ar?

Sede espertas e vivas, filhas minhas! 
Não deixeis que vos roubem 
a alegria do abraço.
Não vos torneis funcionárias!
Cantai! 
Sede ciganas 
e levai a pátria atrás de vós
na carroça dos mais belos sonhos
que o vosso peito engendrar!

Entrai pelas florestas e tocai em cada tronco 
para que ele 
de folha em folha:
vos reconheça e diga: 
estas são nossas irmãs! Vamos dançar!

Amai como quem cavalga o vento!
Sede mágicas e grandes por dentro do coração!
Não deixeis que injustiça ou mesquinhez 
façam ninho à vossa porta.

Ensinai os vossos filhos
a ser pedras 
oceanos
a ser sábios. 
Ensinai-lhes os caminhos da bondade
e fazei-los sorrir em cada esquina.

E por fim 
queridas filhas
se para tanto chegar 
o lado mais claro do meu nome a arder 
levai-o em vossas mãos
e deixai-o junto ao mar
para que as ondas o tornem
num barco feliz 
eternamente a navegar.

José Fanha


Sir Lawrence Alma Tadema - A Coign Of Vantage, 1895

sexta-feira, 22 de novembro de 2013